Os balanços empresariais registram ativos que podem ser identificados, mensurados e comparados.
Caixa, estoques, imóveis, máquinas, investimentos e direitos possuem critérios conhecidos de avaliação.
Há, porém, recursos economicamente valiosos que não aparecem com a mesma clareza nas demonstrações financeiras.
A confiança é um deles.
Costumamos tratá-la como atributo reputacional.
Uma empresa confiável seria aquela reconhecida por cumprir compromissos, agir com coerência e preservar relacionamentos.
Tudo isso é verdadeiro.
Mas ainda é pouco.
A CONFIANÇA PRODUZ CONSEQUÊNCIAS FINANCEIRAS
Ela influencia quanto uma empresa consegue financiar, em quais condições compra, quais prazos negocia, quanto precisa oferecer em garantias e quais parceiros estão dispostos a compartilhar riscos com ela.
Isso acontece porque toda transação econômica contém uma pergunta sobre o futuro.
Quem concede crédito precisa acreditar que receberá.
Quem fornece mercadorias antes do pagamento precisa acreditar que o compromisso será honrado.
Quem investe precisa acreditar que o capital será administrado adequadamente.
Quem estabelece uma parceria precisa acreditar que a outra parte continuará se comportando de maneira razoavelmente previsível.
Nenhuma dessas decisões depende de certeza.
Depende de confiança suficiente para tornar aceitável aquilo que não pode ser conhecido.
CONFIANÇA REDUZ O PREÇO DA INCERTEZA
É nesse sentido que confiança funciona como um ativo financeiro.
Ela reduz o preço da incerteza.
Quanto maior a dúvida sobre o comportamento futuro de uma organização, maior tende a ser a necessidade de compensação.
Juros aumentam.
Garantias são exigidas.
Prazos diminuem.
Limites são reduzidos.
Contratos tornam-se mais defensivos.
A empresa continua podendo operar, mas passa a pagar pelo déficit de confiança que existe ao seu redor.
O movimento contrário é igualmente importante.
Quando uma organização constrói previsibilidade ao longo do tempo, parte dessas barreiras pode diminuir.
Não porque o risco desapareceu.
Porque o mercado passou a possuir evidências para avaliá-lo melhor.
CONFIANÇA NÃO É INGENUIDADE
Essa distinção é fundamental.
Confiança empresarial não é ingenuidade.
Também não significa acreditar que nada dará errado.
Confiança economicamente relevante é a expectativa, sustentada por evidências, de que determinada organização continuará apresentando padrões razoavelmente consistentes de comportamento.
Por isso ela demora a ser construída.
Uma promessa pode ser feita em segundos.
Um padrão exige tempo.
Cada obrigação cumprida acrescenta evidência.
Cada decisão coerente reforça previsibilidade.
Cada crise bem administrada revela informações que períodos tranquilos dificilmente conseguiriam produzir.
Gradualmente, forma-se um histórico.
E o histórico passa a influenciar decisões futuras de terceiros.
UM ATIVO QUE AMPLIA A CAPACIDADE DE AÇÃO
Há aqui uma consequência estratégica importante.
Empresas costumam administrar cuidadosamente ativos financeiros porque compreendem que sua deterioração reduz a capacidade de investir e crescer.
A confiança deveria receber atenção semelhante.
Uma decisão que produz benefício econômico imediato pode destruir confiança acumulada durante anos.
O ganho aparece no resultado presente.
O custo pode permanecer invisível até a próxima negociação.
É nesse momento que se percebe uma característica singular desse ativo.
Confiança amplia capacidade de ação.
Uma empresa na qual fornecedores, financiadores, clientes e parceiros confiam possui mais alternativas disponíveis quando precisa decidir.
Pode negociar.
Pode financiar.
Pode investir.
Pode atravessar períodos difíceis sem que todas as relações sejam imediatamente revistas.
Isso não significa que confiança substitua liquidez, capital ou gestão de riscos.
Significa que ela modifica as condições sob as quais esses recursos podem ser mobilizados.
CONFIANÇA E REPUTAÇÃO NÃO SÃO A MESMA COISA
Talvez por isso seja inadequado pensar confiança apenas como consequência de uma empresa bem administrada.
Ela também é parte da infraestrutura que permite que essa empresa continue sendo bem administrada.
Existe, entretanto, uma diferença entre confiança e reputação.
Reputação é aquilo que o mercado acredita sobre uma organização.
Confiança revela até onde o mercado está disposto a agir com base nessa crença.
A diferença aparece quando alguém precisa colocar dinheiro, prazo, patrimônio ou relacionamento em risco.
É nesse instante que a confiança deixa o campo das percepções e entra na economia.
O MERCADO ENCONTRA MANEIRAS DE PRECIFICÁ-LA
Os demonstrativos financeiros talvez nunca consigam registrar integralmente esse ativo.
O mercado, porém, encontra maneiras de fazê-lo.
Ele o precifica:
Nas condições que oferece.
Nas garantias que dispensa.
No tempo que concede.
E, principalmente, nas oportunidades que está disposto a compartilhar.
CAPITAL FINANCEIRO E CAPITAL DE CONFIANÇA
Empresas acumulam capital financeiro para financiar o futuro.
Deveriam compreender que também acumulam capital de confiança.
Porque, quando chega o momento de tomar uma decisão difícil, ambos podem determinar quais escolhas ainda permanecem disponíveis.
Silvio Rodrigues
Cofundador | Duas Torres





